Aconteceu na madrugada do sábado retrasado.
Minha irmã e eu estávamos dormindo em casa enquanto nossa mãe comprava drogas
na esquina. Já tínhamos chorado, implorado, suplicado para que ela largasse
aquele vício. Tudo em vão.
Foi quando ela subia o morro, depois de ter
tragado a porção diária, que um traficante a puxou para um beco escuro e selou
sua vida com uma bala na testa. Ela não podia sustentar nem mesmo os próprios
filhos, não conseguiria dinheiro para pagar as “pedras”.
Não consegui dormir naquela noite. Estava
preocupado com mamãe. Às 5h30, resolvi procurá-la no beco, e foi no amanhecer
daquele dia que meu mundo caiu aos pedaços.
Havia uma multidão em volta do beco, e, aos pés
do aglomerado, já com lágrimas nos olhos, avistei minha mãe. Pálida como nunca
a vira antes, fraca como meu coração naquele instante.
Corri então até ela, esquivando-me da multidão.
Abracei-a como um filhote sem mãe, clamei seu nome. Meu mundo se desestruturou,
se desfragmentou. Não havia mais esperança alguma na vida, ou mesmo na morte.
Fiquei lá até que a multidão foi embora, para
chamar a polícia. Havia uma poça de sangue sob ela, mas agora meu corpo já
estava rubro por completo.
Quando ela seguiu para o necrotério, voltei para
casa. Proibira minha irmã de sair. Choramos a tarde toda abraçados. Sem pai e
sem mãe. Nunca víramos nosso pai, ele nos deixou. Agora nossa mãe também nos
abandona.
Resolvi extravasar. Peguei um lençol, estendi-o
na parede e fixei-o com pregos. Com o sangue de minha mãe, pintei um quadro,
com as lágrimas de minha irmã, com a angústia de meu coração.
No dia seguinte, a polícia chegou. Mandou-nos
para o Conselho Tutelar e disse que mandariam todos os pertences juntos.
Chegamos à instituição calados, e assim ficamos até o outro dia.
Dias longos se passaram, dias sofridos de
angústia. Foi assim por uma semana.
Numa manhã de sábado, porém fomos a um grande
edifício, por ordem do diretor do Conselho. Ao chegar lá, mandaram-nos seguir
para um salão, acho que era o átrio central. Andamos confusos até pararmos numa
porta grande. Quando o diretor foi abri-la, meu coração teve uma pontada de
esperança e foi pulsando cada vez mais forte.
— Parabéns, filho... — disse ele.
E quando os portões se abriram, contemplei uma
imensa multidão. Uma multidão tão grande, tão grande, que fez brotarem em meus
olhos lágrimas de amor.
Olhei para trás e ali avistei minha obra.
Esperança! Era tudo de que eu precisava.
Aconteceu na alvorada do sábado passado...
Pedro Henrique Acosta
Duarte, 9º ano A.
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