sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Esperança

    Aconteceu na madrugada do sábado retrasado. Minha irmã e eu estávamos dormindo em casa enquanto nossa mãe comprava drogas na esquina. Já tínhamos chorado, implorado, suplicado para que ela largasse aquele vício. Tudo em vão.
    Foi quando ela subia o morro, depois de ter tragado a porção diária, que um traficante a puxou para um beco escuro e selou sua vida com uma bala na testa. Ela não podia sustentar nem mesmo os próprios filhos, não conseguiria dinheiro para pagar as “pedras”.
    Não consegui dormir naquela noite. Estava preocupado com mamãe. Às 5h30, resolvi procurá-la no beco, e foi no amanhecer daquele dia que meu mundo caiu aos pedaços.
    Havia uma multidão em volta do beco, e, aos pés do aglomerado, já com lágrimas nos olhos, avistei minha mãe. Pálida como nunca a vira antes, fraca como meu coração naquele instante.
    Corri então até ela, esquivando-me da multidão. Abracei-a como um filhote sem mãe, clamei seu nome. Meu mundo se desestruturou, se desfragmentou. Não havia mais esperança alguma na vida, ou mesmo na morte.
    Fiquei lá até que a multidão foi embora, para chamar a polícia. Havia uma poça de sangue sob ela, mas agora meu corpo já estava rubro por completo.
    Quando ela seguiu para o necrotério, voltei para casa. Proibira minha irmã de sair. Choramos a tarde toda abraçados. Sem pai e sem mãe. Nunca víramos nosso pai, ele nos deixou. Agora nossa mãe também nos abandona.
    Resolvi extravasar. Peguei um lençol, estendi-o na parede e fixei-o com pregos. Com o sangue de minha mãe, pintei um quadro, com as lágrimas de minha irmã, com a angústia de meu coração.
    No dia seguinte, a polícia chegou. Mandou-nos para o Conselho Tutelar e disse que mandariam todos os pertences juntos. Chegamos à instituição calados, e assim ficamos até o outro dia.
    Dias longos se passaram, dias sofridos de angústia. Foi assim por uma semana.
    Numa manhã de sábado, porém fomos a um grande edifício, por ordem do diretor do Conselho. Ao chegar lá, mandaram-nos seguir para um salão, acho que era o átrio central. Andamos confusos até pararmos numa porta grande. Quando o diretor foi abri-la, meu coração teve uma pontada de esperança e foi pulsando cada vez mais forte.
    — Parabéns, filho... — disse ele.
    E quando os portões se abriram, contemplei uma imensa multidão. Uma multidão tão grande, tão grande, que fez brotarem em meus olhos lágrimas de amor.
    Olhei para trás e ali avistei minha obra. Esperança! Era tudo de que eu precisava.

    Aconteceu na alvorada do sábado passado...

Pedro Henrique Acosta Duarte, 9º ano A.

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